MPM Rock Scene - Campinas

 Francisco, el Hombre | Foto: Rodrigo Gianesi

Ao buscar conhecer melhor a trajetória histórica do rock da minha cidade e da minha região para abrir essa nova sessão no MPM, em muitos momentos me senti um verdadeiro turista em minha própria terra. Vibrando a cada nova descoberta, a cada nova conexão, a cada fabulosa história. Foi como visitar pela primeira vez lugares novos. 

Sempre imagino qual a real importância de tudo ser registrado e, se possível, catalogado, pois foi através da memória de vários amigos me contando histórias, me enviando registros, telefonemas, encontros pessoais, leitura de sites e blogs que fui montando uma parte desse quebra-cabeça. Essa foi umas das motivações iniciais para que eu buscasse entender a finalidade do registro e sobre as diversas utilidades que ele tem ao longo dos anos.

Quando me propus a pesquisar sobre o rock ‘n’ roll feito na cidade de Campinas, eu realmente não sabia no que estava me metendo. Em determinado momento me senti como um forasteiro, só que um forasteiro na minha própria cidade, e tenho a clara impressão que ainda há muito a se descobrir.

Campinas é uma cidade do interior de São Paulo, que conta com mais de um milhão de habitantes. Sua região metropolitana, constituída em cerca de vinte municípios, chega provavelmente a três milhões.


Se você não é daqui, vou te dar um prospecto popular para se situar. Aqui está o Aeroporto Internacional de Viracopos. Os dois maiores times de futebol da cidade são o Guarani Futebol Clube e a Ponte Preta. Aqui nasceu o maestro Carlos Gomes (de O Guarani, Fosca) e Campos Sales, o quarto presidente da república também. Cláudia Raia, Luciano do Valle, Carlos Zara, Gabriela Duarte, Marília Gabriela, o caubói Bob Nelson, Ricky Furlani, o apresentador, radialista e ex-VJ da MTV Brasil Edgard Piccoli, a cantora Luisa Lovefoxxx (que ganhou projeção internacional com sua banda, o Cansei de Ser Sexy - CSS), e mais um monte de artistas de televisão e rádio também são daqui.

Gosto de lembrar que aqui foi o último lar de Cely Campello (de Estúpido Cúpido) e de Percy Weiss, vocalista das lendárias Made in Brazil e Patrulha do Espaço. 

Mas voltando ao nosso tema, é preciso criar um panorama, ainda que não seja definitivo, que ao menos ajude a situar cronologicamente como o gênero musical em questão se desenvolveu por aqui. Essa matéria transmite parte dessa história, apenas parte dela, mas defende a ideia de valorizar tudo o que já foi realizado, e visa motivar toda a produção que vem sendo feita atualmente, servindo de homenagem e incentivo ao desenvolvimento da cultura musical da cidade.

Monumento-túmulo de Carlos Gomes | Foto: Gilvan Ramanini

Gostaria muito de poder introduzir as primeiras referências do rock campineiro com artistas locais dos anos 50 e 60 como a banda Os Errados, que animava domingueiras e bailes exatamente nos mesmos anos que acontecia a British Invasion. Com tantos movimentos e fenômenos musicais importantes surgindo nos primeiros anos de rock ‘n’ roll, eu ficaria muito feliz em tratar de como isso chegou a Campinas com as bandas de baile, bandas instrumentais, linkando com o que acontecia no Brasil. Mas por falta de tempo livre e hábil para pesquisar melhor e conversar com mais pessoas, me limito a iniciar a partir de meados dos anos 70. Espero poder fazer outra matéria à parte ou que isso possa ser amplamente explorado num documentário que alguns companheiros pretendem fazer, gente com muito mais qualificação do que eu.

 Banda os Errados (1968)

Pois bem, em Campinas em meio às revoluções trazidas pela contracultura no final dos anos 60 e início dos anos 70, uma das primeiras menções que sempre escutamos provavelmente seja de um de seus ilustres moradores, o dançarino e agitador cultural Lola, aqui conhecido como Lótus Rock. Lótus foi dançarino performático na banda paulistana Rock da Mortalha, na qual fazia encenações macabras com caveiras, espadas e adereços. Nasceu em Ferrandina, na Sicília (Itália). Lótus não é apenas mais um personagem folclórico da cidade, ele fez história no rock brasileiro com seu grupo, e por aqui recebe uma áurea realmente mítica. Foi homenageado inclusive pala banda Muzzarelas, que batizou um de seus discos de "Lótus Rock AD".

 Rock da Mortalha

A banda Rock da Mortalha foi formada no fim dos anos 60 na cidade de São Paulo (e não em Campinas). Sua música, um rock sombrio que nos remete a uma sonoridade crua como a do Black Sabbath, aportou na cidade para apresentações ainda nos anos 70 com outros grupos locais. Dentre esses grupos a banda Spectro, de Amyr Cantusio Jr., e a Tiu Mellius, banda de Gustavo Rebuá, um dos fundadores da Feira de Artesanato de Campinas, realizada no antigo Largo das Andorinhas, hoje Centro de Convivência do Bairro do Cambuí (na realidade a Tiu Mellius tinha um núcleo campineiro, mas residiam em Ubatuba).
    
Amyr foi assessor da Secretaria de Cultura de Campinas em 2013 e foi co-fundador do primeiro selo de rock progressivo e de música eletrônica experimental do Brasil (Faunus Records/1984). É um pianista erudito formado pela Unicamp, além de ser uma das maiores autoridades em rock progressivo, kraut rock e música de vanguarda experimental do Brasil. Amyr fazia parte da banda Spectro junto a Mário Jorge (baixo), Adilson Samuel (bateria) e Duppermel Jr. (percussão).

                             Amyr Cantusio Jr. (1974) 

Formado por volta de 1973, o Spectro é uma das bandas pioneiras do rock progressivo brasileiro. Voltemos no tempo: seu primeiro registro em gravação data de 1974, mesmo ano de lançamento aqui no Brasil do "Tudo Foi Feito Pelo Sol" dos Mutantes, "Snegs" do Som Nosso de Cada Dia e o autointitulado do Moto Perpétuo (banda de Guilherme Arantes). Já lá fora eram lançados o clássico "Mirage" do Camel e o fabuloso "The Power and the Glory" do Gentle Giant. É também o mesmo ano em que o Yes lançava o "Relayer", com Patrick Moraz nos teclados, que anos depois viria a se tornar o tecladista da banda brasileira Vimana.

O Spectro pôde dividir palco com bandas importantes da época como Mutantes, Made in Brazil, Burmah (Argentina), Dupla Face (Casa Branca) e também o Tutti Frutti de Rita Lee. Essas 5 músicas registradas em 1974 numa fita de rolo no Estúdio Sexto Sentido, estavam programadas para serem lançadas como o primeiro LP do Spectro pela WEA do Rio de Janeiro.  Infelizmente devido a uma fatalidade com o produtor, morto em um acidente de carro, só foi receber seu merecido lançamento quase 30 anos depois pela Medusa Records, isso já em CD.

Além do Spectro, que encerrou suas atividades em 1979, Amyr construiu uma obra muito bem registrada em dezenas de discos lançados com seu projeto o Alpha III.  Até aqui foram 7 Lps e 50 CDs gravados. O Alpha III, apesar de ter óbvia conexão com o Spectro, traz um som mais experimental e eletrônico.

 Amyr em "Andrômeda, O Som das Galáxias" na Livraria Saraiva | Foto: Sonia Alda

Algumas bandas de baile como Sexto Sentido (de Fernando Canabarra), Recinto Fechado e a Banda do Brejo de Valinhos, um dos grupos mais populares da época, também chegaram a se arriscar em composições próprias. Algumas tiveram ótimos discos lançados. A Banda do Brejo lançou em 1974 um compacto duplo com as músicas "Milho Verde", "Placaiada" e "Brioso". Em 1976 lançou um compacto chamado “Turmalina”, que foi tema de uma série da tv chamada “Obrigado Doutor”. No ano de 1985 foi o lançamento do LP "Use e Abuse" pela gravadora RCA.

                                                      Fórmula 6 | Foto: Acervo de Zeza Amaral

A Banda do Brejo surgiu da união das bandas Fórmula 6 e Baby Chickens e teve uma abertura definitivamente importante na história da música popular brasileira. Fez apresentações em diversas cidades e em programas de tv como Clube do Bolinha, Viva a Noite, Cassino do Chacrinha e também em programas de auditórios nas rádios, circulando entre grandes figuras da música brasileira como Roberto Carlos, Rita Lee, Elis Regina, Clara Nunes e muitas outras. Sua música, um misto de rock, psicodelia, tropicalismo regionalista, aliado a um canto com o típico sotaque do interior paulista, transmitia um clima único envolto a letras bem humoradas.

                                Banda do Brejo (1974)

Naturalmente já era de se esperar que existissem alguns redutos e pontos de encontro onde jovens músicos e aficionados por rock de qualidade se encontravam. Quem conta mais sobre isso é Amyr Cantusio Jr:

“Vamos lá...1974.
Ano chave para o Rock em Campinas. Tudo fervia a cultura psicodélica. Todo mundo com roupas coloridas, cabelos compridos e muito rock nas rádios e locais públicos. Havia na Barão de Jaguara a Livraria e Discotecagem Brasil (com 6 cabines de som com vitrolas estilo inglês) onde comprávamos nossos LPS recém saídos. Também a Livraria Teixeira na Av. Francisco Glicério, onde os músicos e ouvintes mais malucos e chegados nas plantas ficavam grande parte do tempo ouvindo som. As caixas ficavam do lado de fora, na rua!. E no Teatro Dom Barreto, Teatro do Clube Cultura (centro) e Barracão (próximo ao Clube Concórdia) era onde aconteciam os shows underground de rock da galera, além dos mais gabaritados, no Clube Regatas e no Tênis Clube (onde esporadicamente tocavam figuras como Mutantes e O Terço).

Lembro de ter tocado junto com o Rock da Mortalha em três eventos grandes: Um no Clube Cultura, outro no Teatro Castro Mendes num final de Festival, e na inauguração da Concha Acústica por volta de 1976, onde estavam também a banda Burmah (Argentina) na qual toquei os teclados pois o tecladista teve um surto. Também tocamos junto com Made in Brazil e Tutti Frutti (Rita Lee) numa ocasião entre 76-79.

 
                          A capa do primeiro disco do Spectro

O SPECTRO gravou o primeiro registro resgatado pela MEDUSA RECORDS (São Paulo) produzido pelo Ray. Foram 100 CDS Picture numerados. Em 2014 o produtor Zaher Zein (R.J. Projeto Luz eterna que gravou e lançou o Módulo 1000, anos 70) gravou a versão DEFINITIVA do SPECTRO (gravação original remaster de 1974 + regravação de 2014 juntas) e + bônus encontrados em fitas cassete.

Já nos anos 80 lancei o ALPHA III que hoje tem 7 LPS e 50 CDS. Haviam mais bandas como Grupo Superfície (do tecladista & vocal Ricardo Botter Maio e irmãos) que fazia um rock progressivo na linha Peter Gabriel e o Grupo Soma (do violonista e guitarrista Ricardo Matsuda). Matsuda acabou tocando no famoso grupo de barroco ANIMA e gravou vários CDs.”


  Valquíria

Já no início da nova década bandas como Quasímodo Traça Jaguardate, Valquíria e Cafajets movimentavam a cena e surgia um grupo que estava alinhado com o punk rock emergente da capital. Quem nos conta isso é o músico Carlos Lozano (Orestes Prezza, Violentures):

“Anos incertos esses anos 80. A Disco Music tomou conta das pistas, os dinossauros do rock estavam enfadonhos e monótonos, as rádios vendidas ao jabá e a indústria fonográfica brasileira 10 anos atrasada. Foi quando os primeiros acordes da distorção Punk começaram a chegar à Capital, vindos de Londres e NY, ecoando lentamente em Campinas.

1981. Praça Carlos Gomes, na estátua do Ruy Barbosa começava o movimento punk em Campinas. De carona com roqueiros velhos e alguns rockabillys, meia dúzia de adolescentes vestidos em couro, arrebites, correntes e muitos bottons, divertiam-se com a surpresa de passantes diante dos cabelos espetados e moicanos. Eram recortes de revistas Bizz, Pop, Mellody Maker, fanzines de SP e ABC, fitas k7 e o Som Pop da TV Cultura, apresentada pelo Kid Vinyl, que diziam que não estávamos sozinhos. 

 Carlos Lozano | Foto: Cleiner Micceno

Então Johnny Rotten disse a frase que mudaria a história da música no mundo: “queremos mais bandas como nós”. E fizemos. SOS Despejados, Agressão e Hemorroidas foram algumas das nossas bandas pioneiras.

Edu Memphis, Cebola, David e Magrão eram Os Cafajets, banda Rockabilly que tocava Ramones, a única banda da nossa turma aceita nos bares. Aos poucos outros desgarrados apareceram, motivando o primeiro Punk ao Vivo em Campinas, dia 10/07/82, no espaço “Barracão de Zinco”. Por mais alguns meses esse encontro aconteceu, trazendo Suburbanos, Inocentes, Desequilíbrio, Estado de Coma, Cólera, Fogo Cruzado, Ratos de Porão, Lixomania, Uster e muitas outras.

Em 1983 uma treta em SP virou notícia, e deu uma abafada no movimento. Por aqui continuávamos nos organizando, e frequentando cada vez mais a loja Punk Rock (do Fábio do Olho Seco), a Estação São Bento e os shows na Capital. Apesar da rivalidade entre os Punks da City e do ABC, Campinas era zona neutra. O escritor Antônio Bivar sempre nos deu uma força, e nossa conexão com o pessoal de SP e ABC sempre foi melhor do que entre eles mesmos.

                   SOS Despejados em 1981 | Acervo Carlos Lozano

Em Campinas tocávamos nas festas de repúblicas, na central do “PC do B” na Barão de Jaguara e alguns bares de SP. Os bares do “Setor”, como chamávamos o quarteirão ao lado do Centro de Convivência, abrigavam a efervescência cultural da cidade. Músicos, artistas e jornalistas tinham seu espaço definido ali, cada qual em seu bar, um ao lado do outro, oferecendo uma fauna pitoresca e heterogênea. O nosso era o Paulistinha, na esquina em frente ao Pão de Açúcar, onde também comprávamos nosso garrafão de vinho coletivo e bebíamos ali mesmo no CCC, falando de música, protesto, política e baladas.

Organizamos uma central punk na casa do Lixo, onde reunimos o que tínhamos de instrumentos para todas as bandas ensaiarem, mas virou festa e os pais dele vetaram. Então começamos a tocar na chácara da Adriana, mas também virou festa e os pais dela venderam a casa. Foi então que a onda new wave chegou da Europa, abrindo caminho para bandas assinarem contrato com gravadoras, lançar discos, aparecer na mídia e desmarginalizar o Rock.

Iniciativas corajosas começaram a pipocar pela cidade, criando novos espaços para shows. Os principais foram o Ilustrada, que criou o projeto “Enquanto a Cidade Dorme”, abrindo espaço para bandas alternativas às 2:30h da manhã. O SoHo, que foi fundado para abrigar o Punk autoral e bandas underground, o Tribo e o Oz que já pegaram uma época mais esclarecida do punk na mídia. Daí nos anos 90 a MTV vendeu o punk para o mundo, e vivemos felizes para sempre. Mas essa já é outra história”.

               Cartaz do 3° Punk Ao Vivo em 1982 | Acervo Carlos Lozano

Outra participante atuante dessa inquietação é Maurine Rocha, que nos concedeu um depoimento, nos contando sua experiência e participação:

“PUNK ROCK O SOM DOS POBRES era o que se lia nos muros da cidade de Campinas na década de 80. O punk rock nos anos 80 quando comecei a curtir era uma coisa bem underground, subversivo. Em Campinas havia um pequeno grupo de pessoas que se reuniam partilhando da mesma insatisfação com toda situação que nos era imposta. Aqui no Brasil o punk sempre teve mais este aspecto de contestação, coisas como o perpétuo círculo vicioso da pobreza, o fardo de ser pobre, automaticamente ignorante, violência na periferia, não aceitação de valores burgueses ultrapassados da classe dominante consumista, a completa falta de perspectiva de futuro e primacialmente a vontade de se fazer ouvir por bem ou por mal com nossa música, nosso visual e toda nossa rebeldia escancarada, seguindo o fundamento principal do punk  – FAÇA VOCÊ MESMO.

Quase não havia lugares onde éramos aceitos, pouquíssimas opções de pico de som, algumas tentativas de formar bandas, mas tudo muito difícil, na maioria das vezes íamos pra capital onde rolava muita coisa e o movimento estava bem atuante, havia uma grande troca de correspondências com o pessoal de fora nos enviando sons, fanzines e as tendências do que estava rolando lá fora.

Já no finalzinho dos anos 80 e início dos anos 90 as coisas melhoraram bastante, sempre teve um pessoal que tinha uma condição melhor, que sempre curtiu um punk rock e conseguiu organizar melhor as coisas, abrir espaços, bares para rolar um som. Em termos de som Campinas evoluiu bastante com uma nova geração de pessoas, nesta altura o punk rock também já estava mais acessível, elitizado e assimilado pela sociedade, mas não deixando de ser bacana.

                    Cartaz do Punk Ao Vivo | Acervo Carlos Lozano

Fiquei um tempo sem curtir, quando voltei e agora, vejo a cena underground bem mais diversificada com outros estilos, todos são vertentes do punk, bem mais engajados nas questões sociais. O punk rock atualmente tem sobrevivido das bandas antigas que ainda estão na ativa junto com as pessoas que nunca desistiram do som e do movimento, tem um pessoal do interior, das outras cidades também bem atuantes com bandas e eventos, agora aqui é praticamente zero, quase nada acontecendo, existe uma turminha que anda por aí no visual, curtem uns sons que seriam até conflitantes entre si, mas sem nenhum objetivo, com cabeças completamente vazias, nada a ver com punk. Eu continuo acreditando e infelizmente na maioria das vezes tendo que curtir em outros lugares.”

Com o rock nacional estourado no país, e finalmente elevado ao status de música pop, amplamente tocada nas rádios e circulando nos meios de comunicação, surge um dos maiores redutos históricos de Campinas, a Fábrica de Areia, que foi a primeira grande casa noturna voltada para o rock ‘n’ roll na cidade. Foram mais de 10 mil pessoas que estiveram em sua inauguração em junho de 1984.

Outro espaço muito importante nesse momento foi o Setor, ponto de encontro dos roqueiros da cidade. Justamente desses encontros, onde rolava muita troca de informação, que vários músicos começaram a se conectar e formar parcerias. O Mister Lanches na Avenida Júlio de Mesquita também recebia concentrações de jovens sedentos por rock.
  80's | Acervo Luiz Claudio Nogueira

A expansão do heavy metal mundo afora havia começado e uma nova geração de garotos inspirados por música raivosa começava a formar suas bandas aqui em Campinas como: Br. Metal, Agressor, Hazzard, Epilepsy, Enforcer, Hellpatrol, Witchammer, Damned, Eternal Death, Offence, Viscera e Deathless. O Offence foi uma das primeiras bandas da cidade a conseguir unir o punk rock com o metal.

O próprio Michel Viana me contou um pouco sobre o Offence:

"O Offence foi fundado em 1987, a princípio para participar de um festival em Campinas, no teatro de arena com mais algumas bandas daqui. Nessa época havia uma cena se formando em Campinas e região, bandas principalmente de thrash/black metal como Anger, Enforcer, Damned, Agressor etc.

Eu nessa época estava ouvindo muito hardcore punk, principalmente bandas europeias como Rattus, Kaaos, Anti-Cimex, The Exploited, Bastards. Comecei a arriscar algumas composições meio na linha Crossover, porque eu também ouvia muito Metallica, English Dogs, Slayer, Kreator, Attitude Adjustment, DRI.

Então me juntei aos irmãos Arthur e Alexandre que moravam perto da minha casa e começamos a ensaiar minhas músicas para montar um repertório e poder tocar ao vivo. 


                                                         Michel Viana (Offence, Lethal Charge)     

Nessa época a molecada das bandas armavam vários shows totalmente independentes, e havia também muitos fanzines que ajudavam a divulgar as bandas. O Rock não era moda, todo mundo meio que se conhecia, era tipo como um movimento mesmo, levávamos aquilo como uma filosofia de vida. Também haviam muitas brigas entre gangues de headbangers de cidades diferentes, e é lógico entre headbangers com os punks, skinheads.

Era um período em que o Brasil começava a se acostumar com um governo “democrático”, após um longo tempo de ditadura militar, que naturalmente fazia de tudo para que, principalmente culturalmente, os brasileiros tivessem o mínimo de acesso ao que estava acontecendo quanto possível. Consequentemente, aquela geração, que era a dos nossos pais nessa época, eram geralmente muito conservadores, e viam coisas como o rock no geral, como algo terrível, marginal, coisa de loucos mesmo, sem futuro, ameaçador. Não tinham uma visão de que aquilo tudo era uma cultura contestadora, que questionava os valores hipócritas da sociedade, etc.

Nas escolas ainda se mandava os meninos cortarem o cabelo, por exemplo. Então os poucos que se identificavam com o rock no geral eram bem mal vistos, tratados com preconceito.

O Offence era polêmico porque tocava basicamente em festivais de metal, embora fosse crossover, tocávamos, além das nossas músicas, covers de Ramones, Ratos de Porão, Olho Seco, Judas Priest, entre outros, e o Mosh era geral. Com sorte conseguíamos abrir shows de bandas em evidência na época como Vulcano, Korzus, Dorsal Atlântica, entre outras, e isso ajudou a dar uma certa visibilidade à banda. Então lá por volta de 1989/90 eu já estava planejando, de alguma forma, conseguir alguma gravadora independente para lançar algo com o Offence (um álbum, ou participar de alguma coletânea). Eu levava a música muito a sério, havia decidido tentar fazer daquilo o meu futuro, como as bandas que eu admirava: Discharge, GBH, DRI, The Exploited, entre outras que viviam de música, trabalhando no underground.

Eu passava várias horas todos os dias praticando guitarra, baixo, bateria, vocal, estudando inglês sozinho, meus pais não tinham condições de me pagar um curso de inglês, éramos quatro filhos, pobres, mas eu me virava para escrever as letras em inglês, meio erradas, mas eu tentava, enfim, eu dava tudo de mim para melhorar como músico, vocalista e compositor. E praticamente sem recurso nenhum, eu treinava guitarra e baixo numa guitarra “Tonante” (quem é dessa época deve se lembrar, pois era a pior, embora também fosse a mais barata das marca de guitarra/violão/baixo que existia), e essa guitarra nem sequer era minha, era do Jean, que tocava comigo numa banda paralela ao Offence que eu tinha. Bateria eu treinava no sofá de casa com duas baquetas podres de velhas.

Então dois caras daqui de Campinas abriram um estúdio de gravação, o Arena, e um deles era o André, que era guitarrista do Enforcer, uma banda que sempre tocava nos mesmos festivais na região com o Offence, e ele me chamou para conhecer o estúdio. O sócio dele era o Caio Ribeiro, que até então eu não conhecia. Eles estavam começando o negócio, fazendo jingles para campanhas eleitorais, rádio, coisas assim.  




Ele então me disse que queria que o Offence gravasse lá, (nessa época gravar em estúdio,  era algo fora da realidade, caríssimo), por ter notado que entre as várias bandas que haviam na região, o Offence tinha um certo público, abria shows de bandas maiores, e tal. Como os “selos” independentes de São Paulo meio que desprezavam as bandas do interior, era muito difícil conseguir a oportunidade de gravar ou tentar lançar algum trabalho em “disco”, na época ainda era em vinil. As bandas divulgavam seu trabalho em fitas cassete, as famosas ”fitas demo”.

Eu simplesmente pirei com a idéia, iria ser um tipo de patrocínio, em forma de desconto no pagamento. Naquela época, na minha cabeça de “adolescente”, conseguir gravar um “disco”, ver minha música ser possivelmente lançada, publicada, como as bandas que eu admirava, como Cólera, Ratos de porão, Dorsal Atlântica, era algo mágico, e ao mesmo tempo que implicava em grande responsabilidade, pois tinha que ser bom, no mínimo no mesmo nível ou melhor do que os trabalhos dessas bandas nas quais eu me espelhava.

E então comecei a perceber que, em termos de execução das composições, como banda, o Offence não estava pronto, e iria levar um longo tempo para estar. Eu admirava bandas e projetos como SOD, Bathory, do Brasil o Psychic Possessor, bandas que tinham só um ou dois integrantes, e lançavam trabalhos muito bons, com um ar meio “cult”, foi quando decidi falar com os caras do Offence que eu queria sair da banda.

Então marquei uma reunião com os caras do estúdio, e expliquei a situação, que eu estava preparado para gravar, tinha material para praticamente um álbum inteiro, mas que seria com um outro nome, que eu iria correr atrás de alguma gravadora, que o material tinha um grande potencial para ser lançado, principalmente levando em conta que eu iria usar o nome do Offence, que já contava com uma certa credibilidade no underground, e foi isso. 


Na época eu estava desempregado, sem grana nenhuma, então o Jean, que tocava baixo num outro projeto que eu tinha tido até algum tempo antes disso, falou que se fosse o caso, gostaria de participar do lance, e que tinha a maior parte da grana para pagar os caras, e depois resolveríamos. Também o André, que havia tocado no Offence nos últimos tempos manifestou interesse no esquema. Então fechamos com os caras de gravar os sons. Eu gravaria a bateria, e uma das guitarras base, o Jean, o baixo, e o André a outra guitarra e os solos. Ensaiamos com violões e eu fazendo a bateria no sofá de casa, e fomos para o estúdio. Gravamos 14 músicas de um crossover furioso, com letras que levavam uma temática. O projeto se chamaria Lethal Charge".


Uma das bandas mais destacadas da época foi o Anger, mesmo com poucas apresentações e pouco tempo de duração. O Anger foi uma banda de thrash metal/crossover formada por garotos vindos de outra banda, a Exceto. Existe um registro de vídeo do Exceto em vhs guardado a sete chaves por um conhecido músico local.

Com a dissolução do Exceto, Ratto e Sergião Turano continuaram juntos. Montaram o Anger com o baterista Albor e Xico nos vocais. Xico tinha um zine chamado Anger Burning e a partir daí resolveram batizar essa nova banda de Anger. Pouco tempo depois, Albor passa seu posto para Fábio Piu (primo de Ratto), com quem a banda seguiria sua trajetória até o último dia.

Anger (1988)

 Piu baterista do Anger (1988)

Com a demo "The Human Brains Factory" o Anger tocou em diversas cidades como Itapira, Limeira, Águas de Lindóia, Mogi Guaçu, e conseguiram atravessar o estado chegando a Minas Gerais, mais precisamente à cidade de Araguari. Ainda muito jovens e viajando sozinhos, enfrentaram muitas intempéries no caminho, dormindo em praças, estações de trem e na casa dos produtores dos eventos.

Nessa época, com todas essas bandas de metal na cidade, foi realizado o histórico festival Metal Revenge I e II. Contando com várias apresentações de bandas da região, foi uma ótima oportunidade de conferir shows de alguns grupos referência do metal brasileiro como o Korzus e o Vulcano.

Metal Revenge (1988)

Deathless | Acervo Jr. Cavera


                                                   Witchammer em 1987 | Acervo Tano Scagliusi


    Epilepsy | Acervo Daniel ETE


 Víscera | Concha Acústica do Taquaral (1989)

Abastecendo essa galera com novidades, discos de rock pesado e bandas gringas estavam lojas como: Metalica Discos, Rock Records, Hully Gully Discos, Anakena. Alguns pontos de encontro eram o 220 Volts,  City Bar, Contra Mão Espaço e Bar, Paulistinha , Natural, Skidabã, Caicó, o Ilustrada entre tantos outros. Circulavam alguns zines também, como o Contato Metalico.

Nos anos 90 a região de Campinas definitivamente se estabelece como uma das mais importantes para o rock alternativo do Brasil. Uma enormidade de bandas surgindo num período de muita criatividade e propostas bastante diversificadas. Língua Chula, Waterball, Aghast View, Biopsy, Grease, Lucrezia Borgia, Brutal Fear, Orestes Prezza, Weed, Kretynos, Kotton Krown, Astromato, Slowdown, MagueRbeS (Americana), Armpyt, Acmme, No Class, Dark Time, Haggar, CrossFire, Nosferatu, Exempt, Raging Angels, Acron, Rei Lagarto, Aerobillys, Coice de Mula, Kólica, Face Ácida, Smoners (Paulinia), Mullekadas e muitas outras mostraram o caminho que seria trilhado nos próximos anos.

Formada em 1991, a banda Muzzarelas sem dúvida alguma se firma como uma das bandas mais importantes do rock campineiro de todos os tempos. Com uma das discografias mais destacadas da região (eu colocaria invejada aqui, mas talvez seja pessoal), eles se tornaram referência para diversos grupos em todo o Brasil. Com um som altamente contagiante, resultado das suas diversas influências somadas às suas enérgicas apresentações ao vivo, a diversão é sempre garantida ao público.

 Muzzarelas no Festival Chama Rock | Foto: J Mag

Outro destaque desse período foi o Lethal Charge. Com um thrash metal/crossover bombástico, fez história lançando seu primeiro álbum pela Roadrunner e sempre é lembrada pela participação do seu vocalista, o Michel Viana, na seleção para substituir Max Cavalera no Sepultura.

Desse mesmo trabalho desponta mais um importante nome do rock campineiro: Caio Ribeiro. Caio atuou como produtor musical e registrou diversas bandas emergentes daqui como o Lethal Charge, os Muzzarelas e o Redrum.  Praticamente fez de tudo trabalhando como produtor e engenheiro de som para muitos nomes de destaque nacional: Charlie Brown Jr., A Banca, Ira, Ratos de Porão, O Terço, Pavilhão 9, Gabriel O Pensador, Raimundos, Dead Fish, Arnaldo Antunes, Otto, Los Hermanos, Flávio Venturini, Marcelo Nova, Sepultura, Suicidal Tendencies, A-há, Rick Martin, enfim, incontáveis artistas. Foi responsável por gravar e produzir muitos trabalhos na cidade e marcou uma época liderando o Estúdio Arenna. Hoje, residente em Santos/SP, ele comanda os trabalhos no Dakota Studio.

      No Class


    Lethal Charge | Divulgação

Mais dois importantes nomes na produção de bandas da cidade que gostaria de destacar são: Tarcísio Jr. do Basement Studio, que marcou toda uma época gravando muitas bandas, e Maurício Cajueiro. Cajueiro, que atuou como músico, engenheiro de gravação e produtor em vários estúdios de Los Angeles, traz em sua bagagem trabalhos com artistas de calibre como Glenn Hughes (Deep Purple/Trapeze).

Nos anos 90 é importante lembrar de dois grupos que atuavam com EBM, industrial e música eletrônica, e que correram meio por fora estando inceridos num outro contexto de som, o Aghast View e o Biopsy. Separei uma lista dos lançamentos de ambos que apresentam uma quantidade respeitável de registros, sem contar remixes e coletâneas que participaram:

Aghast View
Reacticide (1992)
Burned Beyond Recognition (1993)
Nitrovisceral (1994)
1993 Demo Tape + Bonus Traxx (1994)
Chemical Storm (1995)
Vapor Eyes (1997)
Carcinopest (1998)
Truthead (1999)
 In Strict Confidence – Industrial Love / Truthlike - Lançado em Picture Vinyl (1999)
Phaseknox (2000)
Trendsetter (2002)
Drifter EP (2003)
The Valt - Single (2011)
Revisited + Remastered 1994-2004 (2014)


Aghast View 

Biopsy
Nervate (1996)
Cervix State Sequences (1997)
Third Stroke (1999)
Retrofix  - Que contém uma versão de Barrel of a Gun do Depeche Mode (2012)

Esses álbuns, eps e singles foram lançados por selos e gravadoras como: Cri Du Chat, Prolapse Records, Gashed!, DSBP, Eldorado, Zoth Ommog, Alfa Matrix além de outros que saíram de forma independente realizados pelas próprias bandas.

Felizmente tive a grande oportunidade de trocar algumas palavras com o Fabricio Viscardi que foi integrante e um dos mentores desses trabalhos. Atualmente ele está com o AESTHETISCHE, trabalhando novamente com Guilherme Pires, seu parceiro de Aghast View/Biopsy.


 1 - Como se deu a sua introdução a música?

Nossa, comecei gostar mesmo de musica quando eu tinha uns 13 ou 14 anos, andava de skate... punk era o que eu mais ouvia... depois conheci o Guilherme que tinha acabado de voltar dos EUA com a família dele e conheci Nitzer Ebb e Front 242... aquilo mudou minha vida... me achei na musica eletrônica.

2 - Me conte como surgiram o Aghast View e o Biopsy. Vocês tinham alguma referencia regional, ou talvez nacional? Quais foram os grupos, bandas, artistas que os motivaram a fazer esse trabalho?

O Aghast View surgiu e 1992/3 . Já o Biopsy só em 1998/9;  As maiores influencias do Aghast View eram Front 242, Nitzerebb e algo de Skinny Puppy. Do Biopsy era basicamente Swamp Terrorists.

3 - Quais suas lembranças sobre o cenário musical na região de Campinas quando você começou, e qual a realidade que a música eletrônica alternativa em geral enfrentava nesse contexto local? Pergunto isso porque vocês conseguiram lançar discos incrivelmente bem produzidos ainda nos anos 90. Como foi a recepção das pessoas por aqui quando vocês trouxeram suas primeiras gravações?

Campinas sempre foi uma negação pra gente. O pessoal que conhecia a gente no Brasil era de São Paulo, onde sempre teve a cena mais EBM / industrial. Onde realmente tínhamos um publico maior era na Alemanha e EUA. Nos EUA chegamos a tocar em 2001, onde fizemos 4 shows como Aghast View. De Campinas lembro muito pouco. Tinha o Junta Tribo, o pessoal do Muzzarelas... acho que era isto... mas ninguém conhecia ou se interessava realmente pelo tipo de som que fazíamos.

4 - Gostaria que relembrasse um pouco de como era o processo de composição, experimentações, e lançamento dos discos e eps do Aghast e do Biopsy.

Puxa o processo de composição era bem artesanal, muito hardware - teclados, synths, diskettes pra todo lado... meio na raça mesmo... A gente demorava bastante pra fazer a musica e não tinha os recursos de hoje pra deixar a musica com uma qualidade de som 100%. Mas faziamos tudo sozinhos...  as vezes perdíamos tudo porque os diskettes as vezes falhavam... era um processo laborioso...


SOHO | Acervo Sandro Marcelo Lucc

1993 é um ano de destaque porque é o ano em que rolou, no antigo Observatório da Unicamp, a primeira edição do histórico festival Juntatribo, considerado o principal festival de música independente ocorrido no interior do Brasil. Várias pessoas de todo o país vieram ao evento que revelou muitas bandas do underground ao grande público como Raimundos e Planet Hemp, catapultados ao grande mercado depois de tocar no Juntatribo.

O Festival que contou com duas edições, uma em 1993 e outra em 1994, trouxe uma série enorme de bandas atuantes no cenário alternativo da época. Alguns dos destaques do festival que contou com cerca de 46 bandas são: No Class, Muzzarelas, Lethal Charge e Língua Chula (Campinas); Garage Fuzz e Safari Hamburgers (Santos); Pinheads, Boi Mamão, Relespublica e Cervejas (Curitiba); Kiling Chainsaw e Happy Cow (Piracicaba); Planet Hemp (Rio de Janeiro); Virna Lisi (Belo Horizonte); Cambio Negro, Little Quail & the Mad Birds e Raimundos (Brasília); Mickey Junkies (Osasco); Pin-Ups, Ôkoto, Tube Screamers e Magazine (São Paulo); além de muitos outros nomes importantíssimos para o rock independente do Brasil.


Juntatribo 2 (1994) | Foto: Adriano Moralis

Nesse tempo também era editado o Broken Strings, ótimo zine que dava suporte para as bandas locais.

O lendário show do Fugazi aconteceu em Campinas no ano de 1997. Esse foi basicamente o show da vida de muitas pessoas. Numa época ainda sem divulgação via internet, o Fugazi conseguiu reunir cerca de duas mil pessoas em seu show, que foi base de referência para muitas pessoas a partir disso.

Se por um lado bandas como Língua Chula e No Class puderam ter lançamento de disco pela Banguela Records (até então a gravadora que lançou os Raimundos) e o Lethal Charge, pôde lançar seu debut via Roadrunner, por outro lado o Hellish War, importante banda de heavy metal tradicional da cidade, ostenta em seu catálogo um disco ao vivo gravado na Alemanha.

Mas aqui pretendo falar um pouco sobre o Redrum. Formada em meados de 1996, o Redrum fazia uma espécie de thrash metal agressivo, mas sem seguir um modelo. Sérgio Turano e Fábio Zen traziam um som de guitarra bem sombrio com inserções melódicas típicas do metal tradicional. Contando com os vocais inconfundíveis do Alexandre (Enforcer/Muzzarelas), o baixo sempre muito pesado de Ratto (Ex-Anger) e as linhas de bateria incomuns de Paulino, o Redrum registrou a demo “Inferno” e recebeu várias resenhas positivas por revistas especializadas, tendo seu trabalho muito elogiado e lembrado até hoje.


                                                                          Redrum | Divulgação

Um capítulo interessante dos anos 90 aconteceu em 1998, quando a banda Iron Maiden veio ao Brasil com a Virtual XI World Tour e se apresentaria no Estádio Brinco de Ouro da Princesa com a banda alemã Helloween. Horas antes da apresentação um tumulto começou a acontecer em meio à chuva forte daqueles dias. Com o anúncio do cancelamento das apresentações o caos se instaurou e houve muito corre-corre e depredações das instalações do estádio. Infelizmente Campinas não teve sua chance de presenciar um show do Maiden que seria histórico na cidade.

                                                                   Foto: Gustavo Magnusson

                                                   Ingresso do Show | Acervo: Claudio Rovani

Bares como o SoHo, Ozz (que antes se chamou Tribo Urbana e depois apenas Tribo, onde aconteceram vários shows importantes internacionais como Agnostic Front, Lag-Wagon, Mark Ramone, Down By Law, Good Clean Fun, Rasta Knast, GBH, Holly Tree, Cenobites, além do F.D.S, Black Alien e muito mais) e outros serviram de palco para muitas, mas muitas bandas daqui e de fora se apresentarem.

Delta Blues Bar, Desmanxe, Saudosa Maloca e a loja de discos Metal Mania também marcaram uma era trazendo música boa e servindo de plataforma para vários grupos. Me recordo que os primeiros cds que comprei com meu dinheiro foram o "Countdown to Extinction" do Megadeth e o "Rock ‘n’ Roll Over" do Kiss, num dos vários sebos que haviam espalhados pelo centro da cidade nessa época. Infelizmente não me recordo dos nomes de nenhum deles.


       Drákula no Festival DoSol (Natal/RN) | Foto: Diego Marcel


Lunettes

Nos anos 2000, já embalados pela diversidade que se formou nos anos 90, é possível visualizar muito do trabalho que é feito hoje, um número bem significativo de bandas legais com trampo destacado surgiu. The Lux, Lunettes, Suite Number Five, Del-O-Max, TRASTRIO (The Rockillers All Stars Trio), The Violentures, Mortage, Cerka (Antiga Cerkelétrika), Ártico Blue, Oito Mãos, Alcoois, Mobdick, Drákula, Thriven, Footstep, Scarlett O'Hara (não confundir com a banda Screamo), Supervix, Planeshift, The Blue John Incident, Shame, Bad Taste, Infinity, Máquina Voadora, Meia Lua e Soco, Labataria, Mafalda, Marise Marra, Dying Silence, Vó Tonha, Makazumba, Dona HxCelia, Slippery, All Jokers, Novapasta, Blüe Barrel, Pig Soul  e outras como a banda Instiga que entrou na lista das 20 bandas selecionadas para o concurso The Next Big Thing, organizado pelo Serviço Mundial da BBC (isso com a canção “Olá”).

 Wallace Porto do Cerka  | Foto: Neander Heringer

Duas bandas dessa geração vêm desenvolvendo um trabalho bastante significativo, conseguindo expandir seu som e podendo levar suas apresentações para fora do Brasil, caso das bandas Kamala e Cardiac. Com turnês europeias bem sucedidas, são dois grupos muito fortes que estão sempre se movimentando, encabeçando novos projetos. O Cardiac levou seus shows para a Alemanha, Bélgica, República Tcheca e Polônia. Já o Kamala passou por várias cidades da França.

Cardiac | Cartaz da European Tour 2014

 Kamala em sua Euro Tour

Uma outra banda que eu particularmente gosto bastante surgida nessa década de 2000 é a Venus Volts. Inicialmente a Venus Volts se chamava Fluid e ao longo dos anos ocorreram muitas mudanças sonoras e de formação. Antes mesmo de terem feito o lançamento virtual do disco "Venus Volts is Dead" eles conseguiram colocar um de seus singles na abertura do seriado Descolados (mais 9 músicas deles rolavam nas trilhas dos episódios), tocar no Acesso MTV, Sessões MTV, Festival Bananada, Virada Cultural, Festival Do Sol, Motomix e vários outros. 

 Venus Volts | Festival Motomix no Parque Ibirapuera (2008)

Essa foi uma época na qual surgiram várias lojas legais de discos que ainda existem como a Chop Suey, Riva Rock Discos, Casarão e bares como o Sebastian Bar, Ziriguidum, Toca do Ursão, Espaço Antimatéria, a Casa São Jorge em Barão Geraldo, que sempre abrigou música brasileira de qualidade e onde foram realizados várias edições do festival SKAndalosa, criado para promover o Ska e suas vertentes na região. Nomes de peso já se apresentaram nas edições do SKAndalosa: Skatalites (Jamaica); The Spankers e Larika (Rep. Tcheca); The Toasters e Slackers (EUA); Pauline Black (Inglaterra); Yellow Cap (Alemanha); Cris Murray (Canadá); Satelite Kingston (Argentina); além de Brasilites, Canastra, Fullska, Coquetel Acapulco e muitos outros.

O Bar do Zé, um dos mais famosos bares de rock ‘n’ roll da cidade, surgiu no fim dos anos 90, mas teve seu apogeu nos anos 2000. Muitas bandas internacionais e do circuito independente nacional se apresentaram lá: Rikk Agnew (Ex-Adolescents, Christian Death), Walter Lure (Johnny Thunders and the Heartbreakers), Agent Orange, Limp Wrist (E.U.A); Motosierra, Guachas (Uruguai); Simon Chainsaw (Austrália); Boom Boom Kid (Argentina); Human Trash, Lupe de Lupe, The Biggs, Garotas Suecas, Garage Fuzz, Hellbenders, Dead Fish, Rancore, Wry, BBGG, Overfuzz, Charme Chulo, Rock Rocket, Macaco Bong, Autoramas, Forgotten Boys, Rancore, Fabulous Bandits.

O já extinto Hammer Rock Bar, forte reduto de heavy metal na cidade, trouxe atrações como: Blaze Bayley, Grave Digger, Obituary, Exodus, Cannibal Corpse, Paul Dianno, Tim Ripper Owens, Sodom, Belphegor.

O Woodstock Music Bar também aparece com muitas apresentações marcantes: Nargaroth, Kosslowski, Amen Corner, Endrah, Voodoopriest, Zumbis do Espaço, Cólera, Matanza, O Satânico Dr. Mao e os Espiões Secretos, Atomic Nachos, Project46, Gritando HC entre muitas outras.

 Woods Music Bar | Foto: Kaio Mascarenhas

Um exemplo de festival de música independente bem sucedido na cidade é o Autorock, que surgiu em 2003 como uma comemoração dos 10 anos do primeiro festival Juntatribo. O objetivo era trazer para Campinas a cultura rock de bandas independentes e autorais. O Autorock vem se sagrando como o mais importante festival da cidade nos últimos anos, servindo de palco para muitas bandas autorais locais e trazendo várias atrações musicais muito boas, vindas de todo o país.

Exposições de artes plásticas e fotografia, mostra de filmes, atrações em espaços fechados e praças públicas, feira de discos, bazar clube das pin-ups, alguns com ingressos a preços super acessíveis, outros eventos incríveis gratuitos. São alguns dos dez dias mais legais de programação roqueira que acontece durante a realização do festival.

 Programação do 8º Festival Autorock (2014)

Outro ótimo exemplo é o MoPeMuCa (Movimento Permanente Musicália Campinas), trabalho realizado desde 2006, com a proposta de revigorar a cena cultural e musical de Campinas e provocar a abertura de espaços para manifestações artísticas, principalmente através de shows de bandas de vários gêneros, performances artísticas, exposições, bazares de moda, dança, aliadas a ações sociais como doações, feira de adoção de animais e arrecadação de ração.

Quando adentramos os anos 2010 aí falamos do cenário atual do rock campineiro. Muitas bandas antigas ainda ativas e várias outras novas surgiram realizando grandes feitos, tornando a história do rock de Campinas cada vez mais rica e atípica se comparada a de muitas outras cidades do interior do Brasil.

                                                                Get Crazy | Foto: Pedro Spagnol

AQUëLES, Get Crazy, Don Ramón, Dirty Kicks, Dirijo, Desgraçado (Monobanda), Zenitzsche, F3, Doctor Mars (Indaiatuba), Kliav, Aesthetische, Desenmascarado (antigo Danny Impalator and the Murder City Mother Fuckers), Old Chevy, RagaR , Cabaret Tupi (antigo Expresso Verde Café), Anita Latina , Rollbando, Bandidos da Luz Vermelha, Nuvens Invisíveis, Slag (Paulinia), Porrada Solicitada, Golfo de Vizcaya, HEADOFF, Os Dogas, Balé Barbárie, Defuntos Pútridos, Satanagem (Sumaré), Reptilian Kids, A Fantástica Maddame, F.U.B.E - Flávio Urbano e Os Brasilios do Espaço, Ceano, Cidadão José, Bat Patrol e muitas outras bandas surgidas nessa nova década se juntam aos mais experientes.

Eu consegui trocar uma ideia com o Artie Oliveira, vocalista do Don Ramón. Na verdade uma boa parte da minha pesquisa passava por uma espécie de consultoria informal do Artie, que como eu, também é entusiasta do conteúdo artistico e cultural desenvolvido em toda RMC.

                                                                           Foto: Kiko Rezende

“Minha história no roque campineiro começou bem antes de eu começar a frequentar a 'cena' propriamente dita: a minha irmã estudava no Cotuca com meia dúzia de muleque que colava direto no Antimatéria e eu, que tinha meus 14 anos e ainda não sabia o que realmente me agradava em termos de música, comecei a ouvir algumas das bandas que ela gostava por andar com esses bicos. Uma delas era o Get Your Hand Outta There, do Caetano Grippo e que tinha um som que chamava Sickness (ela tinha esse som em mp3, mas o arquivo se perdeu e eu nunca mais achei outra cópia). No final de maio de 2004, teve o que eu pelo menos vejo como o ato derradeiro do Antimatéria como casa/produtora de shows: o Concurso de Bandas do Cotuca, realizado no ginásio do Culto à Ciência. Aquela foi a primeira vez que eu vi banda de rock ao vivo.

Nessa época, eu fazia cursinho e colava com uma rapaziada do Sesi que curtia hardcore melódico e comecei a descobrir uma porrada de banda, como o NOFX e o Bowling for Soup, mas eu ainda nem sabia da existência de banda local, o que só veio a rolar uns dois anos depois. Ao mesmo tempo, eu descobri o disco que foi o responsável por me fazer querer aprender a tocar e que me trouxe de vez pro hardcore: o Smash, do Offspring.

Daí eu entrei pro colegial e virei panqueca, de andar de jaca de couro e tudo em cima. Eu andava com um camarada, o Danilo, que me falou de uma tal de Chop Suey que ficava lá no centro. Como na época eu tinha ouvido falar e tava atrás da coletânea SUB, ele me falou que essa loja de discos tinha a coletânea em CD. Nessa mesma conversa, ele tinha falado de uma banda chamada Muzzarelas que tocou num tal Bar do Zé tão alto a ponto de terem ameaçado fechar o bar (na época que o Milton tava pra sair do endereço antigo e ir pra onde era o Mondo 77). Pois bem... Eu colei na tal loja e conheci o Etê...



Chop Suey Discos | Foto: Adriano Rosa

E foi graças a ele que eu perdi uma pá de preconceito musical, aprendi a ter postura como pessoa, descobri um mundo inteiro de bandas que tocavam no quintal da minha casa e virei este indivíduo que vos escreve!

Quando eu comecei a frequentar a Chop Suey, foi bem naquele período em que uma porrada de casa de show tava abrindo, como foi o caso do Hammer e do Woodstock. Uma história engraçada dessa época, é da primeira vez que eu fui no Woodstock: meu pai tinha me dado carona e a gente rodou o Bonfim atrás de onde era o bar. Achamos o pico sabe como? Saiu uma enxurrada de muleque com peita e calça rasgada de uma portinha num barracão de esquina. A primeira coisa que o meu pai me perguntou ao ver essa cena foi “o que você quer pra te tirar daqui?”. É lógico que eu recusei e entrei!



Lizardo do Don Ramón | Foto: Felipe Gonzalez

Por ironia do destino, vai saber, eu conheci a maioria das pessoas que tem banda de som próprio “pernambulando” naqueles festivais de banda cover no falecido Zirig Dum, ali do lado do Campinas Hall. Mas a minha lembrança mais legal dessa época que eu comecei no rolê foi o primeiro show do Carcaça, a minha primeira banda e que contava com o Spider do DxSx e o Covero dos Defuntos Pútridos. Foi a pior vez que eu subi no palco na minha vida, mas é um dos shows que eu tenho mais carinho na memória (tem uns pedaços dele no YouTube. É só procurar por “Punk de Rodoviária” e “Vila Industrial”).

Passados quase quinze anos desde que eu comecei nessa história de roquenrou, principalmente como membro de banda e inserido num cenário independente de bandas, eu vejo a parada hoje como um gigantesco paradoxo. Sabe por quê? Ao mesmo tempo em que você tem um Muzzarelas, que completou 25 anos de carreira e só tá em atividade porque eles realmente acreditam na parada (mesmo não vivendo da banda em si), você tem um monte de bandas que acham que vão fazer um puta sucesso sem desembolsar boa quantidade de grana pra fazer o bagulho girar (e eu falo de gravar disco com qualidade, ter condições de circular decentemente fora da região e fazer gigs que não sejam pras mesmas cinquenta cabeças que tão cagando pro seu som). É triste pra caralho ver meia dúzia de banda daqui que realmente teve condição de ir pra frente sem abaixar a cabeça, mas não quis se arriscar, saca?

Bem... Como boa parte das pessoas que me conhecem pessoalmente sabem, além de ser o vocalista do Don Ramón, eu sou radialista de formação, mais especificamente, operador de áudio. Trabalho com vídeo desde os 13 anos e desde então, me profissionalizei por volta de 2008. Tive passagem por dois coletivos de vídeo: o Carnificina Cinema Clube e o Sinistro Studios, onde respectivamente produzi de mais importante os filmes “O Cadáver está Vivo”, único registro dos Defuntos Pútridos e o “Autorock – Sexta Edição”, no final de 2011 e que foi lançado dois meses depois no MIS de Campinas. Hoje eu sou o produtor fonográfico do Zarabatana Studio e estou prestes a lançar meu primeiro álbum não como músico, mas como a pessoa que fez o registro do momento de uma banda em estúdio depois de muitos anos só produzindo demotapes. No caso, é o disco de estréia do Blowpipe, que por sinal já conta com single lançado em formato digital pelo Soundcloud.

E depois de todo esse falatório, eu só tenho uma coisa a dizer a quem tá começando no rolê: Não tenha medo de se arriscar! É difícil pra caralho sobreviver dentro de um cenário, mas isso não quer dizer que a parada não é prazerosa, saca? O mais importante é ter consciência de que você tá chegando agora e não é cagando regra pra cima de quem tá há mais tempo no corre que você vai conseguir virar. Escuta o conselho de quem tá nessa há bem mais tempo que você! Na maioria das vezes, funciona... Se pra mim, que era um puta muleque tapado, deu resultado, quer dizer que tem verdade nisso!”


 Sebastián Piracês-Ugarte no Centro Cultural São Paulo | Foto: Pedro Lima

Um grande destaque recente é a banda Francisco, el Hombre, formada pelos irmãos mexicanos Sebastián e Mateo Piracés-Ugarte, que moram em Campinas. Eles se juntaram ao Andrei Martinez Kozyreff (The Sams Hardcore Orchestra/Mataram Meu Mestre) na guitarra, à Juliana Strassacapa (Mataram Meu Mestre/Lisabi) no vocal e percussão e ao Rafael Gomes no baixo para realizar, sem dúvida, um dos trabalhos mais relevantes da atual safra de bandas brasileiras.

Após saírem completamente “lisos” de um assalto à mão armada na cidade de Mendoza (Argentina), por onde passavam em turnê e se preparavam para seguir para o Chile (sim, roubaram carro, celular, instrumentos, equipamentos, discos, dinheiro, documentos, e até roupas), agora o Francisco, el Hombre se embrenha em outro projeto, um financiamento coletivo via Catarse que os levara para o festival AMPM – América por Su Música, que acontece em Havana (Cuba), para realizar a gravação de um documentário, o #VaiPraCuba.

O Lisabi que é outro grupo dos mais atuantes dessa nova geração,  conquistou um contrato com o selo americano Community Records e embarcou em 2014 numa turnê de três meses pelos EUA para promover seu EP "Of Violence". Trouxeram os americanos do All People, uma das principais bandas do cenário atual de New Orleans para o Brasil. Em 2015 acompanharam a banda americana Caddywhompus em sua tour aqui no país, percorrendo por várias cidades.

 Freak Company no Stúdio 606

Dentro do aspecto de bandas em grande ascensão eu destacaria o trabalho da banda Freak Company. Formada em 2012 ela vem galgando seu espaço em apresentações pela cidade. Com músicos sempre muito simpáticos e desenvolvendo um trabalho bastante consistente, certamente um dos seus maiores feitos foi gravar seu primeiro EP no Studio 606 em Los Angeles/Califórnia, de propriedade de Dave Grohl (Nirvana/Foo Fighters/ QOSA/Them Crooked Vultures) com o produtor Luís 'Granja' Venturin, também aqui de Campinas, experiência que foi dividida com a banda Rollbando. Ainda puderam se apresentar no lendário Whisky A Go Go em L.A, lendário clube por onde já se apresentaram The Doors, Roxy Music, Motley Crue, Ratt, Alice Cooper, Aerosmith, Stryper, Guns ‘n’ Roses, Oasis entre tantos outros.

Saindo um pouco do lado mais convencional me recordo do S.E.T.I. (Search for Extraterrestrial Intelligence), formado por Roberta Artiolli (voz) e Bruno Romani (baixo, guitarras e efeitos). Uma mescla de sons eletrônicos, instrumentos usuais incorporados a aparatos tecnológicos. Synthpop, industrial, electro, o som do SETI merece ser conferido e lembrado pela sua cuidadosa produção. Bruno, anteriormente radicado nos EUA, chegou a dividir palco com nomes como: Cage the Elephant, MGMT, The Kills e The Kooks.

 SETI | Foto: Rodrigo Gianesi

No aspecto de bares, espaços pra tocar e casa de shows cito aqui o Grainne’s Irish Pub, The Lord’s Pub, Boteco Formol, Jimmy Rocker, Kabana Bar, American Garage, Bar do Wili, Dublin Nine Pub, Echos Studio Bar, Seo Queiroz, e muitos outros como o Espaço Mog (onde já tocaram Vanguart, Garotas Suecas, Marcelo Camelo, Dead Fish, Copacabana Club, Bonde do Rolê etc) e o Quintal do Gordo, que sem sombra de dúvidas é um dos espaços mais legais que surgiram nos últimos anos, um verdadeiro reduto e casa para as bandas de punk, hardcore e rock ‘n’ roll na cidade. Foram tantos e tantos shows incríveis como: Doom (Inglaterra), White Collar Sideshow (E.U.A), Sport (França) Blood Red Throne (Noruega), Simbiose (Portugal), Dance of Days, Presto?, Hutt, Fistt, Figueroas, Water Rats, Zander, Far From Alaska, Que Fim Levou Valdir?, Corazones Muertos, Nervochaos, Seek Terror, Horace Green, Agrotóxico, Sugar Kane, Bayside Kings e O Inimigo, além de muitas bandas da região, com portas sempre abertas às pessoas que realmente dão valor, suporte e respeito ao trabalho dos produtores de eventos locais. Infelizmente mais uma vez o espaço físico está inativo, mas de coração eu espero que não seja o fim do QDG, só nos resta esperar.

 Capa do EP MetaChimera do Circus Boy | Arte por Ricardo Wong

Atualmente temos várias frentes que valorizam e enriquecem o rolê de rock em Campinas, somando e construindo parcerias. Fotógrafos como Bruno Carmo (guitarrista da banda Kiara Rocks), Julia Magalhães (J MAG), Felipe Gonzalez (QDG), Rodrigo Gianesi, Victor Hugo, Neander Heringer, Guilherme Trindade, Wellison Ribeiro, Fernanda Coronado, Robson Afonso (Nova Odessa), Lilian Bento, Tati Oliveira, Kiko Rezende. Lojas como a Disorder e sua galeria que recebe além de várias programações legais, espaço para outras lojas como a Freak Out Discos, por onde também já passou a Callejeros Wear Brasil, a Lojinha Las Cosas. Não muito longe dali existia a loja física da Dixie Art, que apesar de não existir mais, permanece comparecendo a boa parte dos eventos com seu stand. Temos selos e distros regionais como o Chop Suey Discos, Monstro Music, Motim Records (Valinhos), Criminal Attack, Neves Records (Santa Bárbara do Oeste), Café in Sônia, Marreco Records.

Diversos estúdios de tatuagem como o Marchioni Tatuagens, Jair Tattoo Studio, Gatto Matto, Kalafuria, Viking Tattoo, Bones (Agora Monarca Tattoo), Ink Moment Tattoo & Piercing, Cambuink Tattoo, Los Almeidas Tattoo Studio. Também os estúdios de música, pois sempre tivemos estúdios legais por aqui: hoje contamos com o NosOtros, Cajueiro Áudio, Black Bridge Studio, Zarabatana, Republica do Som, Clube da Música, Stage Record Power Audio Studio e Síncopa. Há uma enormidade de trabalhos da galera que comparece com stands, food trucks, em eventos como é o caso do Banza Ninja, Radiola Clothing, Mexicann Skull entre outros.

 Daniel ETE | Foto: Wal Donati

Fora isso há alguns artistas do rock que cumprem outras funções além de músicos de bandas locais. Um dos exemplos disso é o Daniel ETE, que não é apenas o produtor do Autorock, baixista das bandas Muzzarelas, Drákula e Desenmascarado e tem sua loja de discos, ele também presta seus serviços de DJ e Seletor Musical em festas e é um requisitado artista gráfico para diversas marcas e artistas da cena independente. Saca só alguns dos nomes que já contaram com seu inconfundível traço: Weird, Sick Mind, Fucking Life Clothing, Inferno Club, McRad, Setiembre Once, Motor City Madness, Violator, Confronto, Dance of Days, Mukeka Di Rato, Garage Fuzz, Slag, Leptospirose, Corazones Muertos, Ratos de Porão, Bandanos, Zumbis do Espaço, Executer, Ação Direta, Galinha Preta, Lobotomia etc.

Nas artes plásticas temos também o Artur Souza que faz esculturas incríveis! Recentemente ele fez uma série limitada para a comemoração dos 50 anos do personagem Zé do Caixão, assinada pelo próprio José Mojica Marins.

 Artur, José Mojica e Liz Vamp

Uma das melhores “aquisições” recentes para a cena musical da cidade é a chegada do casal Fernanda Coronado e Deco Dluxe (baixista do Psicotrópicos Deluxe), agora residindo em nossa cidade. A produtora e fotógrafa não só organiza o maior e mais tradicional festival de surf rock do Brasil (Primeiro Campeonato Mineiro de Surf) como também tem trazido diversos nomes importantes do surf nacional e gringo para apresentações aqui em Campinas com a Tiki Tiki Boom.

Gostaria de agradecer imensamente a todas pessoas e amigos que me ajudaram com informações, com minha pesquisa, com material, dedicando seu tempo para me ajudar na realização dessa homenagem ao rock campineiro e da nossa região. Daniel Pacetta Giometti (Chop Suey Discos), Sissa e Raphael (Secret Lab), Will Pereira (Woods), Lalá Ruiz (Correio Popular), Amyr Cantusio Jr. (Alpha III), Sr. Gilberto (Casarão), Daniel Soares, Artie Oliveira (Don Ramon/Zarabatana), Ratto Nogueira (Bat Patrol), Sérgio Turano (Denim And Leather), Tano Scagliusi (Ultraseventies), Osny (Hully Gully Discos), Márcio Christofoletti (Desgraçado/Bat Patrol), Denny Leocádio, Jr. Caveira (Deathless), João Caveira (Reptilian Kids), Carlos Lozano (Violentures), Maurine Rocha, Fernanda Coronado (Primeiro Campeonato Mineiro de Surf), Claudio Rovani, Leyli Souto e Sheila Gonçalves.

  Ohw Shit no Autorock 2013 | Foto: J MAG

Por: Thico Soares

14 comentários:

Parabéns Thico, conteúdo, fidelidade, diversidade, ficou ótimo. Lerei tudo assim que possível. Abraço, bom trabalho.

11 de mai de 2016 16:44:00 comment-delete

Obrigado Carlão, ótima participação, obrigado por ajudar e curtir!!!

11 de mai de 2016 17:48:00 comment-delete

Ótima matéria! Parabéns!

11 de mai de 2016 18:26:00 comment-delete

Excelente!!!

12 de mai de 2016 00:39:00 comment-delete

Texto excelente mano!
Ficou faltando mencionar o BOIcote, festival importante da galera do hardcore e vegetarianism (makazumba, meia lua e soco, etc) e uma menção honrosa ao Brother, skatista das antigas e figura icônica do punk em campinas :)

12 de mai de 2016 04:36:00 comment-delete

muito legal, parabens!!!

12 de mai de 2016 16:00:00 comment-delete

ótimo texto, meu chapa! eu tava lá e fiz parte disso (grease)

abraxas

12 de mai de 2016 18:53:00 comment-delete

sensacional !!! parabéns pelo registro :)

12 de mai de 2016 21:43:00 comment-delete

Maravilhoso trabalho! Parabeeens!

13 de mai de 2016 04:24:00 comment-delete

Que legal conhecer um pouco mais da história da música em Campinas e legal também ver a minha ex banda Vó Tonha citada e ver que também fiz parte desta história.
Parabéns pelo texto

13 de mai de 2016 22:14:00 comment-delete

Putaqueopariu! Que saudades dessa vida!
Muito bom o conteúdo, um acervo fudido de bandas, muita história bem contada. Muito massa mesmo!
Parabéns rapaz!

Feroiz
30 de mai de 2016 18:31:00 comment-delete

Este comentário foi removido pelo autor.

31 de mai de 2016 15:24:00 comment-delete

Valeu Pedro!!!

31 de mai de 2016 15:24:00 comment-delete

OS LUGARERS MAIS LEGAIS DE PROGRAMAçAO ROCKEIRA QUE EU VI FORAM: MEU QUARTO (BENZINA, CAIPIRINHA E QUILOS DE MACONHA... OPS E A PERDA DA INOCENCIA (PROS VISITANTES°)) BAR DO MEIO (O LOTUS COMENDO UM COPO AMERICANO DE VIDRO), C.C (VARIAS MATINA E MANGUIAçAO), CONCHA ACUSTICA E TAQUARAL (MUITO BECK E VINHO CHAPINHA), ANTIMATERIA,(O DESCOBRIMENTO DO COROTE) KARAMBAR/KABONG (MUITA CARONA DE BUSAO P CHEGA EM BARAO), OZZ (INTERBAIRROS, COLA E BAIANINHA DE COCO), BATBAR (CONTRAVENçAO) HAMMER (ALGUNS TIROS) NESSES LUGARES EU VI REI LAGARTO, LINGUA CHULA, DARK TIME, LUCRESIA BORGIA, MORTAGE, LETHAL CHARGE ENTRE OUTRAS...SAQUEEI MUITA ROCK BRIGADE (PORQUE ERA A UNICA INFORMAçAO MUSICAL ROCKEIRA DISPONIVEL) E

29 de out de 2016 04:28:00 comment-delete

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