Lobão: Resume a cena dos anos 80 e fala sobre heavy metal, Herbert viana, Cazuza e Chico Buarque


Lobão esta divulgando seu novo livro, o Guia politicamente incorreto dos anos 80 pelo Rock, em sua passagem pelo programa da rádio da Jovem Pan, o cantor falou sobre diversos assuntos abordados no livro e recontou com detalhes vários fatos que contribuíram para a construção do Rock brasileiro nos anos 80. É uma entrevista legal para quem curte a história do rock nacional, ele aborda desde o prog dos anos 70 até o fim do anos 90. 



E o site UOL Publicou trechos de seus livro que podem ser lidos abaixo. 


Sobre Marina Lima:

Me apaixonei pela voz e pela música da Marina. Como se isso não bastasse, um par de anos mais tarde, eu viria a fazer parte de sua banda, acompanhá-la em turnês por todo o Brasil, me apaixonar de verdade por ela (...) Marininha, musa gay, acabou por namorar a baianada top de linha daquele momento. Quando a conheci, estava de romance com a Maria Bethânia (que Deus a perdoe!). Na verdade, Marina, a despeito de seu imenso talento musical, começou sua carreira com aquele famoso beneplácito do coronelato baiano, vindo corajosamente a se tornar independente dele anos mais tarde, ao abraçar o rock, e a ser um dos principais ícones dos anos 80.

Sobre Maria Bethânia:

Nada pessoal, mas acredito que Maria Bethânia seja uma das aberrações artísticas mais insuportáveis geradas pela música nativa. Ela faz parte daquele fenômeno típico, quando alguém, por ser esquisito, torna-se miseravelmente confundido com algo genial.

Sobre Heavy Metal:

É necessário ressaltar aqui que, com a exceção do Sepultura, acho a estética metal um tanto vascaína, circense e monotemática para meu gosto. (Acho um pouco repetitivo esse papo de satã, morte, inferno, apocalipse, pragas epidêmicas, sem falar naqueles cantores dando aqueles falsetes terríveis, parecendo empalados por um imenso caralho enterrado na bunda.)

Sobre Herbert Vianna:

Para completar minha inédita perplexidade, percebo que Herbert, com a envergadura de um verdadeiro Zelig nativo, grava seu vocal com os mesmos maneirismos que eu usara para cantar no Cena de cinema! “Caralho!”, exclamei a concluir ludibriado, “é a música do Guto!” É o título chupado do meu disco, olha só a lambreta, e aquela ali é a porra da minha voz! Esse merda chupou a minha alma! Fraude! Fraude!” Há quem afirme que sou louco, que são apenas pequenas coincidências e a minha indignação é completamente infundada. Pode ser sim, mas o que estou relatando aqui foi o que senti no momento e esse episódio.

Sobre Monique Evans e Heroína:

Tem muita gente que acredita que a canção [“Décadence avec élégance”] tenha sido feita para a Monique Evans [até então sua namorada] e, pela enésima vez, juro de pé junto que não foi. Jamais faria uma canção com aquele teor para uma pessoa que amei de verdade e por quem tenho o maior respeito. Na verdade, eu já estava separado dela quando uma outra namorada minha me flagrou com uma tampa de Minalba cheia de heroína e me passou uma tremenda esculhambação, que aquela situação não poderia ser mais deplorável, decadente etc. e tal. Aquilo mexeu com meus brios, me envergonhei sinceramente daquela cena caricatural e acabei jogando a tampinha de Minalba cheia de heroína dentro da privada para nunca mais consumir aquela droga.

Sobre Elza Soares:

No dia seguinte, Elza chega direto do enterro do filho, adentrando o estúdio para o assombro de todos nós (...) O clima era de uma tristeza inexprimível, até que, de repente, a música começa a tocar (sem a minha voz), e a voz de Elza rasga o estúdio. Tenho certeza de que aquele momento foi a coisa mais emocionante e comovente que uma expressão musical já me causara e me causará.

Sobre Cazuza:

Cazuza está pele e osso, quase sem voz e roxo, inteiramente roxo, devido às doses cavalares de AZT. Ver um amigo assim, confesso a vocês, não é uma coisa fácil (...) Ele queria fumar maconha e cuspia na bagana e me obrigava a fumar aquela coisa toda babada, dizendo: “Não vai fumar? Vai fi car todo cagadinho aí com medo de pegar Aids da minha baba?” E eu respondia algo pior: “Me dá essa porra aqui, sua bichinha traiçoeira!” (e fumava, mas morrendo de medo).

Sobre Chico Buarque:

Chico, além da notória autoridade em perscrutar e cantar a alma do pobre fictício e do malandro alegórico na área da música de crítica-social, também se especializaria em psicografar os dilemas e dramas femininos da mulher brasileira balzaquiana carente de classe média-alta e em breve faria dupla com Gilberto Gil, gravando a autocomiserada, enfadonha e canastrã “Cálice”. Lembro da minha sensação quando ouvi “Cálice” pela primeira vez: tive vontade de vomitar.

E nosso Chico Buarque é, nada mais, nada menos, que a encarnação, a síntese dessa paumolenguice.

Sobre a Revista Bizz:

O que poderia ser pior é percebermos uma imprensa especializada em rock se firmando no mercado, pegando o vácuo da prosperidade, fruto das penosas conquistas daquela geração, e desenvolvendo o mote iniciado no Rock In Rio: por um lado, promover o enaltecimento vívido e explícito do rock internacional e do outro, primar pelo achincalhamento, a ridicularização da cena nacional, poupando apenas um seleto grupo de escolhidos, sabe-se lá por qual critério (...) Nascia do ventre da Editora Abril, a revista Bizz, uma espécie de coveira dos anos 80 e de si mesma pois, de tanto vaticinar a morte do rock, recebeu como herança de sua arrogância e rancor a terrível sina de morrer, morrer e morrer através dos anos.

O trecho acima foi retirado da publicação do whiplash


0 comentários:

Postar um comentário